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  • Foto do escritorAndréia Carvalho

A Poética do Pêndulo Perfeito

Atualizado: 13 de nov. de 2021

Prefácio do livro Grimório de Gavita, por Caio Cardoso Tardelli



Se fitasse além de suas neuroses fossilizadas,

recuperaria os sais e os precisos caninos para a

siderurgia corpórea, fundamentais para nutrição

e desova de sonhos.

em Dama-Oriax

Andrade Muricy, ao relatar as reações dos Simbolistas acerca do poema “A Dor”, de Emiliano Perneta, confessou o choque que o dístico “Noite. O céu, como um peixe, o turbilhão desova/ De estrelas a fulgir. Desponta a lua nova.” causou até mesmo aos artistas abertos a inovações vocabulares. Foi, afinal, uma das mais revolucionárias imagens escritas por nosso Simbolismo, muito por consequência do excêntrico - para a época - vocábulo “desovar” utilizado em analogia a algo considerado sempre a quintessência da pureza – o céu. Pois, inevitavelmente, como uma semente que fecundasse pouco a pouco, em um pêndulo temático que resistisse ao tempo, essas metáforas que vão além de uma chã cosmovisão de nosso universo deságuam conscientemente na poesia Neo-Simbolista da paranaense Andréia Carvalho.

Em seu terceiro livro, revela-nos os poemas anteriores à produção dos dois primeiros (A Cortesã do Infinito, 2011, e Camafeu Escarlate, 2012, ambos pela Lumme Editor), configurando-se este, sobretudo, nas iniciais manifestações de consciência poética da autora, que já se fazem definitivas. Trata-se de um Grimório... um livro de magia ou de bruxaria, portanto. Essencialmente, paira o seu desenvolvimento na mística e na metafísica, não raramente evocando, em certo espelhamento contemporâneo das ânsias espirituais de Dario Vellozo, o esoterismo versado; constituído em três seções, não abandona jamais o aspecto do mistério. Grande parte da matéria deste livro é formada por poemas em prosa, cujo ritmo particular, um tanto alígero, lembra-nos o fatalismo urbano contemporâneo profetizado por Baudelaire em seu “O Relógio”. Não obstante, tematicamente, tudo nos dá a sensação volatilizada de um grande sonho que às vezes toma as proporções da terra para nos ludibriar.

A influência Simbolista neste Grimório de Gavita cinge a evidência sem pairar na imitação. Na admirável prosa poética “Beatus Vir”, como de um Cruz e Sousa nos altos momentos de Missal, Andréia Carvalho nos canta: “na noite tísica, percorrem minha óptica os pontos riscados do purgatório.”; muito relevante também é o belo “Anátema”, em que a poeta, de maneira reveladora, mantém a ânsia de “subir bem alto para o pousar sibilante” dos vates oitocentistas.

Mas chamo a atenção para os versos presentes principalmente na terceira parte deste Grimório. Apesar de alguns deles aparentarem uma formalidade muito maior do que a poesia atual de Andréia, configura-se tal hipótese em uma falácia: a sua musicalidade é invulgar, sem basear-se em padrões claros de rimas ou em métricas fechadas. A poeta, muitas vezes, utiliza-se de assonâncias e de uma combinação entre o plural e o singular – quando não simplesmente do verso atonal -, o que a coloca como adepta de uma poesia que, se fosse em forma de música, dir-se-ia Dodecafônica. O exemplo do “Primeiro” dos Três Figurinos para o Papel Tornassol é interessantíssimo:

A presença divina em carne e cisma

além do quadrângulo circunscrito

agora é circunferência do estigma

o raio no leito e o crucifixo

Em outra desenvolvida relação com os textos Simbolistas oitocentistas, a poeta nos confessa, na segunda parte do “Pó de Calipso no Turíbulo de Caim” (notem a aliteração presente no título), a mesma “fome de infinito” e pressentimento de transcendência daqueles vates:

Antiga e adorada divindade,

compadeço-me de tua fome

sabem os que têm na testa

tua marca bestial, sabemos bem

o que é a fome de infinito

Não são raras as vezes em que a poeta flerta com a percepção ab initio das coisas unida às divisas comuns aos dias contemporâneos - sejam elas urbanas ou não -, como em “Safira Fria” (“o aborto desta lua/ ínfera/ apenas/ alça o silo comunal de cereais”) ou em “Celacanto e Clepsidra” (“à medusa/ sempre sereis/ a persona/ parábola & pó/ dos reis”). E, particularmente nesse último caso, atento-lhes à curiosa relação entre as crenças de perpétua continuidade na poesia de Andréia e na filosofia do estoico Marco Aurélio, que defendia em um trecho de suas Meditações: “Qualquer pessoa que tenha visto o dia presente já presenciou todas as coisas, porque tudo o que aconteceu, desde que o tempo começou, e tudo o que acontecerá será para toda a eternidade”.

O brilho da imagética da poeta não raramente assemelha-se ao de um prisma que, iluminado, propaga em direções várias a luz que o alumia. Não à toa, adeja por este Grimório a livre associação das ideias, como se ele todo fosse escrito em um grande e intérmino sonho no qual não fosse obrigada a autora a se deter quando alguns caminhos opostos surgissem em seus versos. Mas, da mesma maneira que em “Efeito Jaula” (“basílica tundra/ coração nefelibata/ intocado pela vulgaridade/ dos mercados”) Andréia nos mostra que o caminho para o atingimento da espiritualidade e mística surge também por meio de uma posição em que o coração “que caminha nas nuvens” se põe como intangível ao mundo material, é notável que a poeta confronte-se várias vezes com os materialismos do dia-a-dia (“meu coração cinemascópio/ há muito/ ferveu/ teu ícaro/ convertido/ em óleo/ industrial”, em Cateter).

Eis, portanto, uma obra em que a poética de Andréia Carvalho desenvolve-se sob o pêndulo do “sonho/objetivismo” inevitável aos tempos contemporâneos. Mas não obstante a essa percepção oscilante de suas ânsias, em um louvável mutatis mutandis, tudo quanto nos oníricos desses versos canta, rapidamente transfigura-se à perfeita medida daquela beleza que, pudera, pensaria Marco Aurélio, arrebata desde o sempre no universo.

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