NeƓnia - Letra D
- Gavita
- 2 de jan. de 2025
- 10 min de leitura

Dama de todos os naipes
Sangrar todos os meses, desesperadamente. Um tipo de poder que cresce e que se esvai. Sem fim. NĆ£o hĆ” desperdĆcio. A natureza Ć© sĆ”bia: intui e se protege. E pode interromper a circulação quando melhor convir. NĆ£o descartem ou ironizem esta etapa cognitiva. Criem teorias, assediem filosofias. Pensem e julguem. Quem tem, sabe. Ć como ter filhos, ou livros e fantasmas. PlĆ¢ncton e espectro. Mas nĆ£o estou falando disto. Estou falando da intuição rainha. A dama de todos os naipes. O climatĆ©rio Ć© certo. Dizem que a bomba H tambĆ©m. Sou darwinista. Intuo e me protejo. Fez, tem retorno. O sangue circula e se renova.
Dama-alcatraz
Suas joias me afetam profundamente. Provocam-me distĆŗrbios plasmados, pois sĆ£o carismas lapidados de ressentimentos seculares: a morte circunvoluta dos moluscos, a incisĆ£o horrenda na pĆ©lvis da fluorita. NĆ£o posso amĆ”-la senĆ£o com a carótida pulsante de um animal agonizante. Os cordƵes umbilicais que me atam a seus brilhos esticam-se e urdem com interjeiƧƵes proferidas por larvas fabulosas. Ela, a gangrena gramĆ”tica. Mesmo atada Ć s suas cartilagens enrijecidas, aos seus versĆculos percevejos e ao seu lamento de ourives, deixo-me necrosar em sua meditação preciosa. Visto seu hĆ”bito incrustado, mais uma vez. Como uma insĆgnia tumular branca, mimetizada na fantasmagoria do marmóreo nevoeiro.
Dama-ciĆŖncia
Certas misĆ©rias humanas nĆ£o passam de perdigotos de dragĆ£o. Entre o marrom e o Ć¢mbar. Com minha saliva de quĆmica vermelha, injeto clorofila no azul das pequenas afliƧƵes. Em meu exercĆcio de sacrifĆcio colorido, os corpos sĆ£o ensaios em tubos de chroma key. Explosivos.
Dama-oriax
ā na mĆ£o direita segura duas serpentes sibilantes ā
Contempla āa belaā, transformada em āa dolorosaā. Mapa de pele morta no monitor arcaico de um antigo anatomista. Ela, dura-mĆ”ter, vaticana de si, com a altivez da trindade tolamente substituĆda pela evangelização cognitiva de suas carnes apĆ”ticas. Descamada em sortilĆ©gio de inanição. Nunca entendeu a causa de sua osteoporose cósmica, pois evitava a visĆ£o da eterna catadora de ossos pelas encruzilhadas mentais. Se fitasse alĆ©m de suas neuroses fossilizadas, recuperaria os sais e os precisos caninos para a siderurgia corpórea, fundamentais para nutrição e desova de sonhos. NĆ£o ocultaria o guizo, delator de suas vĆboras neuronais (acesas de mitologia arcana). A noite das cruzes nĆ£o estalaria seus espantalhos, sufocados no espartilho de lata. Ao sair, tu que a vĆŖ, com a lente multifacetada dos insetos livres, zepelins sobre carcaƧas: avise-a que nĆ£o senti nem mesmo um estremecimento psĆquico, quando a deixei partir. E dize Ć outra, āa que oraā, leprosa metalla, que a louvo na ceia pĆ©trea. Na rótula ferruginosa, duplicata carcomida na mĆ£o da entidade que alimenta.
Dandelion
.verto o enxofre deste mistƩrio.
.como um eco, como um eco, como um eco.
.de felino esférico na latência de um deus.
DemƓnio muito antigo
DemĆ“nio muito antigo, sou o que rezam. Seduzido pelo latim, sem precisar entender o significado de qualquer artefato vocĆ”lico ou consonantal. O som me suga e me acaricia, entrando na caixa craniana como se pĆ©rola molhada no ventre maleĆ”vel das pĆ©treas espirais. Apesar do desconforto mecĆ¢nico pelo canal auditivo, sĆ£o suaves as concordĆ¢ncias ā segredos e prantos dos fossos marinhos, profundos e ricos em luminescĆŖncias ofuscantes ā dessa lĆngua de exorcistas assustados com mensagens de idiomas que nunca traduzirĆ£o, humanos que sĆ£o. Pelos seus verbetes sacros encontro as catedrais, as góticas, as barrocas, as tĆsicas e as de pedra bruta, amplificadas pelos contorcionismos do coração de ferro derretido da terra. Gloria in excelsis Deo, por ti nasci, ricocheteando no chicote luminoso dos raios em espetĆ”culo elĆ©trico, um jogo de poder na sombra celeste encenada pelos vitrais. Quando cantam os relógios, confusos pelas teias dos meridianos, os ponteiros tinem como sinos dentro de meu sono secular. E acordo para o expediente que alimenta o suor dos rostos. DesƧo sobre as faces, orvalho e fermento brilhante. OuƧo a queda dos lĆquidos ā labor, saudade, dor e celebração. Formam-me os humores que vertem da dicção e da escrita. Sou uma tĆ”bua lĆ©xica de segredos no abecedĆ”rio de elementos. Deixei-me escrito, codificado. Erudito e atencioso, enfeito a flor do LĆ”cio na ceia pagĆ£ dos religiosos. Decora-me e te devoro. Recita-me e seremos um poema em prosa sem a genuflexĆ£o artificial dos sonetos obedientes e milimĆ©tricos. AmĆ©m.
DestinatƔrios
Janela com cortinas entreabertas. Apoio do cĆ”lice e moldura dos vinhedos. Tudo que gira na vitrola. TaƧa de vinho tinto, sem gota venenosa. PĆ©rola e Ć”lcool evaporam antes de escoar para os sonhos. Os vales suspensos em estacas castanhas como xale de inverno, bordado com desenhos complementares de coleópteros paralisados. IlusĆ£o de movimento quando o vento desliza sobre a trama esticada ao sol e os besouros parecem voar em carreira. Olho fechado. NĆ£o fossem as asas quitinosas com sua sensação de carvĆ£o Ćŗmido, o outro tambĆ©m se fecharia. Os lĆ”bios digerem a palavra branca e os pĆ©s estĆ£o brancos. O branco do corpo e o negro da falsa estrada solta no ar. O caminho chuvisca Ć”rvores rĆ”pidas, seiva Ć¢mbar de rio coagulado em leito quase morto. Mais perto, mais perto: o filete na casca repleto de formigas vermelhas. Pequenos cacos violetas pela respiração entrecortada do cĆ©u. EloquĆŖncia. Ainda hĆ” Ć”gua. Quadro, cena, recanto mental. Para fugir sepulcro, para cantar escuro, para adubar o interior do sangue com qualquer coisa que nĆ£o tenha gosto de sal e açúcar diluĆdos. Mineral plasma bruto sem que o estanquem sem que o julguem sem que o entendam. Amor nĆ£o escrito. Cascos de fogo silenciosos cauterizando desfiladeiros. Corvo tĆ£o azul em redoma frĆ”gil, de vidro. O azul Ć© dor e ninguĆ©m percebe. O azul nĆ£o existe. SilĆŖncio. NĆ£o hĆ” pĆ”ssaro. HĆ” o plĆ¢ncton de luz mais tĆ”ctil onde as pupilas viajam a noite de constelação terrena. EstilhaƧar. Hora de acordar o selo. A carta voa. As frases se rasgam.
Dezessete horas para a caravana dos espĆritos afinados
A Ɣrvore de falso boldo caiu adocicada no jardim do intervalo. O jardineiro tambƩm era falso, terceirizado, com salƔrio atrasado, contando-me que na verdade era porteiro.
Não tive coragem de usar as folhas podadas, jÔ que perdi o hÔbito de carregar lupas nos bolsos do jaleco, agora entupidos por cÔpsulas ilusionistas.
Um sol capitalista, atropina vespertina, deu-me a visĆ£o de uma moƧa com cabelos cor de cĆ©u, a rainha dos micróbios ianomĆ¢mis. Ela disse ao boldo que me foi ā Levanta-te, pega teu leito e anda!
HolĆstica Ć© a ceia das bestas nesta polifonia de tesouras. Para um anatomista, nĆ£o hĆ” som que ultrapasse a compreensĆ£o, bela e maioral, da possibilidade de actina danƧante pelas chaminĆ©s hidrotermais. NĆ£o hĆ” consolação fisiológica que nĆ£o seja esta, para um adepto da colisĆ£o.
TectĆ“nica, eucariota ponte, eis-me orionte em tuas crateras cognitivas! Estes teus olhos dilatados pela burocracia a que sucumbem os futuros cegos e o destino dos monges. SĆ£o mĆopes tambĆ©m as moƧas atrĆ”s do balcĆ£o dos sanatórios. Ousam o pĆ£o pelas salas contaminadas, sem lembrar as lokiarqueias pelo fundo mais profundo das fossas marianas e outras, Ć“nticas e abissais. Seus carimbos sĆ£o minha mĆŗsica legionĆ”ria a 3.283 metros de profundidade.
A dama eólica da anticoncepção, hemerocallis fulva, como trombócito no picadeiro da aorta, talvez sinta cócegas ou cólicas. Apenas um córrego contido pela cesÔrea cósmica. Fórceps? Provavelmente.
Ć sempre doce a minha hora do chĆ”.
Diabo azul
O diabo azul sorri de soslaio, arruda ou sĆ”lvia no musgo ā lĆ”bio sóbrio de espelhos. Olha, o diabo azul, para todos os livros azuis, aquele tegumento de urĆ¢nias capturadas pelas manias mĆŗltiplas do cata-vento, quando teima esferas no cĆ©u elĆ©trico das violetas tentadas ao adormecer. Nada de flores no sorriso, mas um barco muito antigo sonhando a crescente flutuante sobre um abismo de lĆ”grimas agitadas. A flor Ć© sempre uma Ć”gua contorcionista, nem sei se podes ver. Mesmo assim, a mulher-lagartixa grita agonias sombreadas no órgĆ£o rĆgido das catedrais ā aquĆferos de cuspe bifurcando oraƧƵes de salitre. Quantas horas eram? As mesmas horas ruminantes no corpo de espinho-cristo e o sino minĆŗsculo imitando escapulĆ”rios na parede que sempre encontra os pĆ©s. Os dedos alados em passo de morcego diurno, por falta do sangue aveludado das tapeƧarias. VĆŖ a orgia? Comecei com um diabo azul-celeste, o lĆ”bio-portal sugando o enredo de qualquer floresta que ouses imaginar. Arabesco e plataforma de vidro vulcĆ¢nico, para que te possas deslizar o ventre lagarteado. Onde encontras o cĆ©u dos beatos, quando os pĆ©s esquecem as nadadeiras do teu gene colisor? Merapi, erebus, gĆ”s louvado a 3800 metros do sombrio mar. Ć vermelha a boca da moƧa que Ć© mil mulheres. Sei que jĆ” a tomou nos braƧos quando a folha te pousou no punho, enquanto mergulhavas no frescor dos mĆ”rmores e das esfinges ā como relógio canibalista, sobrevivente de erupção. Depois, atração temporal no circo de horrores sĆsmicos. Tentavas reconciliar a deusa do oceano com o demĆ“nio do vulcĆ£o? Erta Ale, erta ale, magma exposto no teu osso, feito bruma vadia de jugular. Agrotóxicos e andróginos oscilam. Se hienas nĆ£o mastigarem estes seus suspensórios porosos, virarĆ” pó aluvial. LembrarĆ”s uma raposa voadora? Meu palco Ć© de pedra-pomes. As garras? Pontas de obsidianas para pantĆ”culos de hominĆdeos. Como o vagar sem echarpe por necrópoles: nĆ£o aconselho. Onde foi mesmo que perdi o enredo do diabo azul? Creio que nĆ£o foi minha perdição, mas tenho certeza de que ele se perdeu nas próprias imagens que me enviou. Eu ainda consigo me deter em cada verso vertebral e contemplar a sua espinha bĆfida na redação de meu espectro de brocken.
DomƩstica ao dromedƔrio
Nem camĆ©lia, nem camela. Suas rendas escuras, as melhores tecnologias digitais. TĆ”teis como cinzas de cigarro abandonado, funerĆ”rias de mar nenhum. LĆngua eletrĆ“nica de efeito viral. Cuidadosa ao mastigar, quando sozinha pelas salas & alas. Para nĆ£o afogar agonias no anonimato das sĆlabas esfomeadas. Sem plateia, o palco Ć© palato primaveril. OpulĆŖncia, opulĆŖncia. Com dardos de opala digere e cospe afetaƧƵes luminosas pelos tapetes e tablados toscos. Tanina de thanatos, digita enquanto bebe. Gramas e mais gramas de redutor de tempo derretendo o bigode chinĆŖs. E uma inseparĆ”vel gola rolĆŖ no chacra larĆngeo, a tarja preta no perdigoto. Se deixar que as quimeras saiam livres da voz, serĆ” que retornam? Na dĆŗvida⦠adestre antes de cantar ao deserto.
Drama druida
SolstĆcio de inverno, meu drama druida depois da noite de Walpurgis. FĆ”cil performĆ”-lo nas florestas geladas do sul, com suas pradarias de pedras naturalmente ritualĆsticas. NĆ£o Ć© raro encontrar pequenas flechas abandonadas no campo verde de batalhas, as penas da gralha-azul. O solo esburacado pelas minas terrestres das urucuriĆ” impele o cuidado do pĆ© pelas gramĆneas: pise como se na catedral de ossos sagrados. Avós. Uns olhos de cĆ©u germĆ¢nico e pintas de ferrugem na pele de leite, nascidos do outro lado do mundo. E a cabocla com olhos de stregaria e saias de cigana, sempre cuidando do fogo. No encosto dos campos, os pinheiros tĆŖm a estatura do cornĆfero, o gamo dos celtas no sopro dos carvalhos. Encosto-me anciĆ£ em conversa com as ancestrais. Reinam comigo quando represento Yule, um pouco abaixo do trópico de capricórnio. AtĆ© que se entorne na brancura da face o zĆŖnite urucum do sol.
Drops de Durga
Jung chicoteia a paciente. E dela, em cristais subterrĆ¢neos, flutuam ao ar os conceitos de uma tolerante idolatria aos sĆmbolos. A nuvem ornamentada, a linguagem ritualĆstica. Portanto, nĆ£o tema o āagente dificultador da objetividade discursivaā. SĆ£o cĆ”psulas, comprimidos, desenhos sugestivos em bulas. Tratam do incĆŖndio aturado pelos decibĆ©is inaudĆveis no forno antigo dos alquimistas. Ardem como receitas mĆ©dicas psicografadas. IndecifrĆ”veis, atĆ© que se umedeƧam e amoleƧam na saliva. Engula. AgirĆ£o no estĆ“mago. Os Ć”cidos internos saberĆ£o o que fazer com esta lĆngua que te cospe.
Duas brumas e um rosto
TĆ©cnica de Gram. Cor secundĆ”ria. Vaidade ou sobrevivĆŖncia? Morgue de foxglove na omoplata. Dez negras espadas na calƧada, ladrilharam o cortejo. Foi assim: a abóboda do crĆ¢nio afundada como um cristal tentando a forma na veia do vulcanismo. A fontanela abrindo-se em copas de tesselaƧƵes. Ouro do mundo, onde estĆ”? Por que me assombra com esta carta em flor? Luva de raposa, dedais do morto. NĆ£o hĆ” mistĆ©rio nem iconografia. Ć apenas a floração esconderijo preferida pelas abelhas valquĆrias, digitando vórtices no papel pardo com a tinta pĆŗrpura de uma antiga escritura. Ć o mesmo pasto de campĆ¢nulas de sempre, no pacto da letra e das paredes com que me resguardo. Agora nos fios, que me lembram o tear das moiras violetas e dizem: seja cromĆ”tica, como sĆ£o os grimórios e as presenƧas que nada esperam da compreensĆ£o alheia que nĆ£o seja a companhia pela efemeridade da existĆŖncia. A mala estĆ” preparada, mais uma vez. Roxa.
ā¦lĆ”grimas de tanino abraƧam a noiteā¦
O sol imenso aparece fraco pela tessitura paranoica das nuvens em um dia seco. O não discurso das rendas é tatuagem de sigilos na pele de lúcifer, estrela da manhã. Esta música de luz não quer dizer nada, mas não me diga que não posso ver o sincretismo do relâmpago nesta alegoria. Se vejo a costura, uma agulha resplandece pela rede neuronal. E não hÔ vocÔbulo mais metÔlico que o bastão das costureiras na teia dos dias. Fibra de nimbus, trovoada. E eis o risco azulado no centro do tédio cromÔtico. à claro e certo que todo astro é um tatuador obsessivo.
Duplicata ardorosa
O ano do Rato. E sonho com sĆmios. Jardins selvagens, fĆ“lego de Bosch pelas raĆzes. Chega atĆ© aqui, onde o tropical só alcanƧa o chĆ£o por um milagre de giro. BalĆ© intuĆdo. PavƵes, talvez sĆlaba proferida por vitral. MesopotĆ¢mia? SerĆ”? PavƵes na sombra dos zigurates. No jardim suspenso, a pluma na mĆ£o do jovem, descrevendo antĆŗrios invisĆveis no ar. Ele conversa com seu duplo pelo rabisco quĆ¢ntico: navega uma viela veneziana. Nas Ć”guas das minĆŗsculas flores da folha cardĆaca vĆŖ barcaƧas. NĆ£o se intimida. Arde em libaƧƵes vermelhas. NĆ£o o vermelho vulgarizado da paixĆ£o muscular, mas o vermelho da lĆ”grima dos deuses babilĆ“nicos. O vermelho dos vasos comunicantes e das Ć¢nforas do menino-cabra. O vermelho sagrado. Seu corpo Ć© um ritual. Seu duplo Ć© uma esfera dourada na ossatura delicada do leo-pardo selvagem. Sobressai na noite como as lamparinas flutuantes dos navios cortando o fio laminar do oceano. E as nebulosas distantes? E o nome escavado na cordilheira? Aqui, no ano do Rato, onde a manhĆ£ Ć© fria como coĆ”gulo cristalino na trama dos arvoredos, com sĆmios amedrontando barcaƧas de musgo. Os olhos do jovem sĆ£o brotos de Ć”gatas atrĆ”s dos antĆŗrios. Migração. Cordas grossas no ancoradouro: passarela de roedores. Terra Ć vista: palmeiras esparsas. Esta visĆ£o de calor. Sufocante. E os imensos blocos de gelo na curvatura do horizonte? Para onde evoluem estes passos vacilantes de tua mĆ£o? NĆ£o sei desta atmosfera sempre aconchegante e calorosa. Nasci no frio e meu duplo aprendeu muito cedo o resguardo de provisƵes. Potestades. A densidade das nebulosas. As cordilheiras e os pavƵes. Encanto perdido. Converso com o duplo que vive no deserto. O que mais poderia ser alĆ©m da pedra com o ventre exposto na fĆŗria na Ć”gua? Rótula da curva solar. Por vezes Ć© cansativo ler o que Ć© escrito agora, ou entĆ£o algum surto de lucidez me revela palavras que eu tinha, tĆ£o raras e antigas, profanadas pelos silicatos. Tornadas vermelhas, aquele primeiro vermelho; fugaz, versĆ”til, caloroso. Nesta hora entendo o sĆmio do sonho, e meu duplo mergulha brĆ”cteas na infusĆ£o das dunas. Ele se entristece, seu corpo de ritual quase desaparece pela nebulosa do pavĆ£o. Palavras que nada rezam. Um pouco mais pĆŗrpura, mais parda. Ferrugem ancestral. Se fosse assim o vermelho que quis sangrar e que nĆ£o compreendem. Vermelho sagrado, diz o duplo levitando na esfinge e do zigurate de opalinas. Jardins de areia suspensos. Torres de Ć”gua nua. Aqui, no ano do Rato, Ć© intolerĆ”vel esta parafernĆ”lia tropical. O duplo Ć© vermelho. Do carnaval, a gestação das cinzas bentas aduba seu sangue-linfa. Madre-silva.
