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O Cinema para Ciclopes de Andréia Carvalho

Atualizado: 13 de nov. de 2021

Artigo para a coluna Retrato do Artista, da Revista Cult n.196 (novembro de 2014), escrita por Claudio Daniel




Andréia Carvalho pesquisa tradições mitológicas ocidentais e orientais, incorporadas em sua poesia de maneira bastante criativa, ao lado de referências das artes visuais, da música e do cinema. A escrita poética da autora curitibana revela uma sensibilidade e um imaginário que nos fazem pensar em certa poesia simbolista de Santa Catarina e do Paraná, especialmente em autores ainda não devidamente incorporados ao cânone, como Ernani Rosas (1886-1955), Dario Vellozo (1869-1937) e Gilka Machado (1893-1980), mais afeitos à dicção demoníaca de um Rimbaud e à escrita cifrada de um Mallarmé do que à suavidade melódica de Verlaine. A ressonância do inquieto signo luciferino permeia a obra da autora, especialmente em seu livro de estreia, A cortesã do infinito transparente (2011),onde encontramos inusitadas sinestesias, como estas: “Mineralizar a lágrima / Fazer-se rútilo // Vibrar além da tua sangria / Pelas ervas, pelas especiarias / Com a estatura do musgo, / dos fermentos, / do sedimento”. Em outra composição, escrita na forma do poema em prosa (gênero inaugurado por Baudelaire), lemos uma quase profissão de fé, entre imagens da mais excêntrica teratologia: “Tenho visões com miríades de seres que pulsam do imaginário. Vegetais, minerais e animais caminham pelo sangue. Entram pela retina e saem pelas mãos: letras e imagens. Depois que sangram não se sabe onde está o mineral, o vegetal e o animal. Carregam no ventre a sagrada comunhão das ossaturas fantásticas, com plasma de ninfa e sílica e olhos andróginos”. A alquimia verbal da autora prossegue em seu segundo título publicado, Camafeu escarlate (2012), que apresenta um título deliberadamente arcaico, como se ela intentasse buscar um timbre que remetesse à segunda metade do século XIX, aos insólitos logradouros onde Baudelaire e Jeanne Duval degustavam ópio ou absinto. A voluntária imersão nesse universo cultural não significa que a poesia de Andréia Carvalho seja passadista ou paródica, no sentido do pós-moderno, muito ao contrário: ela não imita formas literárias clássicas, como o soneto, não escreve versos metrificados ou rimados nem utiliza um vocabulário anacrônico, elementos visíveis na poesia de outros autores que dialogam como o simbolismo, como o carioca Alexei Bueno. Andréia Carvalho pratica, nesse conjunto de poemas, uma escrita concisa, emprega quase sempre letras em caixa baixa e elimina os sinais de pontuação, recursos frequentes nos poetas jovens mais próximos da arquitetura minimalista. No poema de abertura de Camafeu escarlate, por exemplo, lemos estas linhas: “onde estavas / quando eu / afundava a terra / no lago de nadas //na ejaculação dos signos rútilos / nos fósseis auto-retratos // não espelhos, vidros / sentenças do convalescente átrio / não arco-íris, serpente / e vitrais de escamas / a água coagulada”. Notável, nesta peça, a descrição do ausente por uma sucessão de negações, que avançam até surgir “um rosto sobre o abismo / de trevas”. A lírica da negatividade, associada aos temas da solidão, da memória, da angústia, da infância e do sonho atravessa o livro, construindo as mais inusitadas imagens e metáforas, como lemos nestas linhas: “há a criança / vermelha / no sótão coágulo / da memória / (...) / onde não volto mais / escorpiões / vagueiam pelos dentes do leão”, que nos faz pensar na fúria semântica da melhor poesia portuguesa da atualidade, a vertente hermética de um Herberto Helder, outra referência marcante na lírica da autora. Grimório de Gavita (2014), seu livro mais recente, reúne poemas em prosa escritos antes das peças que integram seus dois primeiros livros publicados e apresenta, já no título, a presença do livro de magia (grimório), associado ao nome da esposa de Cruz e Sousa, vítima da miséria e da loucura. Em todas as composições dessa obra encantatória, o registro sinestésico e metafórico e o recurso da compressão semântica (“estrela-trator”, “sapatos-de-lótus”, “dama-oriax”) criam uma quase nova língua, regida por uma lógica visual e sonora. Andréia Carvalho realiza, nesse conjunto de invocações ao lúcifer-da-linguagem, uma das obras mais perturbadoras e belas da novíssima poesia brasileira.

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